domingo, 1 de março de 2015

Boletim Dolores - Março de 2015



Subir lomas
hermana hombres.
               José Martí

Mais de 10 dias cavando montanhas, escalando povoados, mirando a altura das palmeiras reais e florestas orientais da ilha.
O último lomo rochoso, antes do horizonte rasgado do mar, guardava nos peitos tênue sensação de um mundo decifrado, mas, ao dobrar o topo da última montanha e espelhar todo mar azul em céu do caribe lambendo a savana dourada: os peitos explodiram.
A caçamba do caminhão passa a gritar e as mãos lançadas nuvens enquanto o vento arreganha bocas e chacoalha catedrais em nossas costelas.
Savana La Mar possui água límpida e quase morna tocando a praia de pedrinhas coloridas. Uma ponta da praia é limitada por imensa rocha porosa migrante do ocre ao marrom escuro quando pousa na serena água doce do rio San Antônio.
O rio, antes do sal das correntes caribenhas, guarda pedras ovoladas nas funduras breves do caminho de serpente. Suas pedras abrigam o calor dos dias como se germinassem filhotes de dragão e ousassem tornar quentes os pés, água em degrade resfriando até o pescoço.
Cactos nos guarneciam do alto do rochedo enquanto um pelicano pescava o sol poente ladeado pelas chuvas ao sul da imensidão.
Desperto num corredor à porta do teatro apodrecido. Do colchonete donde deitei-me observo a hélice enferrujada que servira de exaustor à nave. No fundo do palco empoeirado, de madeiras úmidas, carcomido por mofo e bolores coloridos, descansa um afresco do ufanismo cubano em bandeira e flores tropicais. As cadeiras destroçadas da platéia memoram burburinhos de antes da guerra. Bloqueio econômico e fim do bloco socialista varrem Cuba pra misérias genocidas. Sete anos de fome. Sete anos da nova revolução, a revolução contra a falta.
A ilha já não esfaimada sobeja gentes e dignidades escassas pela ordem capital.
O teatro habitado por morcegos que durante a noite flanavam sobre minhas orelhas mostra-me o derretimento de uma promessa. Na sala contígua derretem quatro pianos, e por toda parte desfaz-se prédios em mofo, farelos e tétano. Pelas frestas de concreto chora nosso teatro o cinza das chuvas de inverno.

Luciano Carvalho
10 de fevereiro de 2015
San Antônio del Sur
Guantánamo
 Cuba



Carnaval, 2015 e nosso bloco "Unidos da Madrugada" saiu às ruas 
no dia 13 de fevereiro com o samba enredo de 2015 
"Dolores em lutas, em atos e em festas".
Veja o vídeo e outras informações aqui.

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Ainda neste carnaval, no sábado, na Batucada do Povo Brasileiro, tivemos o cortejo do Cordão Carnavalesco Boca de Serebesqué lembrando que "Não tem água, não tem chuva, mas o bloco vai pra rua!!" (uma notícia por cá). E, no domingo, em Jandira, para finalizar lindamente as saudações carnavalescas ao ano de 2015, tivemos a Escola de Samba Unidos da Lona Preta do MST, reunindo as batucadas do povo brasileiro e comemorando seus 10 anos de história (assista o vídeo). 

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No último sábado, mutirão no CDC movimentou paredes, armários, chão e telhado 
em nosso espaço auto-gerido e firmemente ocupado. Fotos e relato aqui.
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Para mais informações sobre alguma atividade ou notícia desse informativo, 
acesse nosso blognossa página no facebook 
ou mande um e-mail para gente: doloresbocaaberta@gmail.com

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CDC Vento Leste – Rua Frederico Brotero, 60 – Cidade Patriarca 

Acesse o blog do CDC Vento Leste:

Carnaval 2015

 

Nosso carnaval saiu às ruas nesse ano na 6ª feira 13 de fevereiro. Dia de sorte, mesmo com nuvem preta, alguma encrenca e dificuldades técnicas. Esse carnaval dá início oficial às comemorações de 15 anos do Dolores completados no 2º semestre deste ano.


O percurso partiu do Metrô Patriarca e seguiu pelas ruas do Jd. Triana até o CDC Vento Leste, com direito à paradas e breques em todos os pontos importantes do caminho. Das lajes e janelas, somos saudados em nosso festejo. Encontramos alguns mais animados que criam pequenas comissões de frente para nosso cortejo, de um churrasco um convidado acompanha o samba no cavaquinho, e no famigerado "escritório" recebemos saudações, palmas e danças desajeitadamente animadas.

Muitos se somam ao cortejo, fazendo chuvas de confete e dançando até nosso espaço onde brindamos e tocamos nosso Samba-enredo 2015 pela última vez... ao menos no dia de hoje.

Nosso Samba-Enredo:

DOLORES EM LUTAS, EM ATOS E EM FESTAS
Samba-enredo Unidos da Madrugada
Carnaval, 2015
Veio do morro vermelho
Mostrando logo a que veio
Na luta construindo seu enredo
Faz mutirão, batucada,
Ocupação na quebrada.
Vem sambar unidos da madrugada.
Nasceu no ano 2000
Menina lida com seu sonho juvenil
Fazer teatro na periferia
É do povo, quem diria
Depois do trampo transformando o dia a dia
Mas sabe que sozinha não dá mão
Fez poesia de dentro da lotação
Dançou na sombra de um incêndio, "arreuniu"
Na militância o horizonte se abriu
A vida não finda, bailarina
Eu bebo eu fumo
Eu como com farinha
Eu não me envergo
Eu não me quebro
Eu perco folhas
Sou osso duro de roer
A vida não finda, bailarina
Eu bebo eu fumo
Eu como com farinha
Meu pixaim não tem medo de canibal
15 anos nesse Carnaval!
Um diamante que não quer se lapidar
Nem o petróleo a fez um dia se curvar
Mulher e mãe botou a vida para cirandar
Comer, dormir, trepar.

E para finalizar, com gostinho e sonzinho de "quero mais", nosso vídeo síntese carnavalesca.

Mutirão no CDC Vento Leste

Sábado, 28 de fevereiro de 2015.

Cedo, cedinho. Sol, solzinho que logo vira chuva, chuvinha!

Dia de mutirão no CDC. Muita arrumação, limpeza, mas também cimento e azulejo fazem parte do cenário movimentado: cerca de 30 integrantes dos coletivos que gerem o espaço se encontram enfiados em tarefas importantes para melhoria e manutenção. Além de um esforço maior para diminuir os objetos não identificados que se acumulam no espaço...

Ainda tem muito a fazer... sempre teremos. O teatro mutirão se estende constantemente ao mutirão mutirão. Espaço público, coordenado e mantido coletivamente, para a realização dos trabalhos dos grupos na sua relação com a comunidade.

Foi bonito, olhaí!

Próxima reunião no sábado dia 14 de março para novo mutirão, para nova reunião, pra novo mutirão...












segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Boletim Dolores - Fevereiro de 2015


É CARNAVAL, SEGUNDA FEIRA NÃO TRABALHO NEM A PAU....

A cidade mais uma vez se enfeita para a festa, nas periferias os que constroem o cotidiano de uma escola de samba já respiram a ansiedade, nas pequenas agremiações também a expectativa para a semana festiva é grande, pequenos blocos de foliões, cordões ou blocos de sujos pipocam pela cidade... A expectativa é somente pela chegada do grande dia de ocupar pequenas ruas dos bairros e poder soltar seu grito de liberdade, beber a canseira do dia a dia, e suar a camisa, não pelo maléfico trabalho diário que deteriora nossos sonhos, mas pela alegria da certeza de que ainda na quarta feira de cinzas encontraremos tempo de restituir nosso físico, nossos corações e mentes.

Também nós do Dolores nos inserimos na festa carnavalesca, de certa forma até um pouco natural, pois esta festa apesar de todas as investidas do capital é sim uma festa dos trabalhadores, dos pobres, negros, periféricos.

Nosso pequeno bloco Unidos da Madrugada, embora nunca tenha saído na madrugada, faz sobrevoar sua coruja símbolo pelo bairro do Patriarca, arrastando foliões de vários pontos da cidade e também aqueles desavisados que vendo a banda passar pela janela não se acanham em sair à rua pra brincar a festa ao som de nossa batucada.

Cantaremos e celebraremos os 15 anos do Coletivo Dolores Boca Aberta, nossa luta, nossa arte, nosso carnaval que a 5 anos anima o CDC Patriarca. Convidamos a todos para somar nesta folia!!!

Neste ano a coruja dará seu rasante na sexta feira 13 de carnaval. A concentração será a partir das 18hs, em frente ao metrô Patriarca.

Tita Reis

Veja o nosso carnaval de 2014 através do vídeo produzido pelo Projeto Batuque - SP.




Dolores em luta, em ato e em festa
Samba-enredo Unidos da Madrugada 2015

Veio do morro vermelho
Mostrando logo a que veio
Na luta construindo seu enredo

Faz mutirão, batucada,
Ocupação na quebrada.
Vem sambar unidos da madrugada.

Nasceu no ano 2000
Menina lida com seu sonho juvenil
Fazer teatro na periferia 
É do povo, quem diria
Depois do trampo transformando o dia a dia

Mas sabe que sozinha não dá mão
Fez poesia de dentro da lotação
Dançou na sombra de um incêndio, "arreuniu"
Na militância o horizonte se abriu

A vida não finda, bailarina
Eu bebo eu fumo
Eu como com farinha

Eu não me envergo
Eu não me quebro
Eu perco folhas
Sou osso duro de roer

A vida não finda, bailarina
Eu bebo eu fumo
Eu como com farinha

Meu pixaim não tem medo de canibal
15 anos nesse Carnaval!

Um diamante que não quer se lapidar
Nem o petróleo a fez um dia se curvar
Mulher e mãe botou a vida para cirandar
Comer, dormir, trepar.

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CDC Vento Leste – Rua Frederico Brotero, 60 – Cidade Patriarca 

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quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Boletim Dolores - Janeiro de 2015


Dolores Boca Aberta Mecatrônica de Artes, nome e sobre nome, somos nós. 
Nós numerosos, críticos, politizando-se. Nós trabalhadores da vida social e fazedores de arte na vida poética que nos constitui como ser social. 
A Dolores, isso, o Coletivo Dolores é uma Mulher, que faz teatro com os filhos no peito, amamentando, que esbraveja, acalenta, cria, briga, ama e pulsa. 
Dolores menina faceira, completa em 2015, 15 anos, uma debutante às avessas, que faz mutirão e festa, com cerveja e poesia nas margens do Morro Vermelho e beija sorrindo estrelas e canta canções de ninar sonhando com Carnavais ContraHegemonicos que atravessam portões e cavalarias, desempoçam vitrines Louis Vuitton, talhando instituições bancárias e incendiando papéis do agronegócio, enquanto a fogueira esquenta os tambores para o Jongo no terreiro, e, foliões embebidos na farra, banqueteiam-se em vinho, queijos e outros líquidos excitantes.  
Somos nós, A Dolores, uma Mãe em incansáveis ocasiões. Agindo como Mãe, errando como Mãe, admitindo e amando como Mãe, no imediatismo dos nossos aluguéis, da compra do mês, do cigarro barato, da cerveja no copo, dos rascunhos nos papéis, dos cafés, dos poemas, dos amores, da cozinha cheia, dos risos, nas piadas e nas esquinas que a vida nos opõe.  
A Dolores é um coletivo que abraça o mundo de forma poética, artística e carnavalesca, porque sonha em sambar nas Casas Embebedando-se de Toró, subir em pés de Bergamotas e despertar-se do Jornal Nacional, porque lê os poemas do Piva e faz peça de teatro, dança como Sombras Neste Incêndio, milita e atua como sujeito periférico, trabalhador e fazedor de arte que não se deslumbra em Meninos Diamantes do Indivíduo Individual. 
A Dolores nesse último ano, quis ser maior ainda, pariu muitos filhos e muitos sonhos, e como Mãe Dolores que é passou por processos e transformações e como não se pode viver sem Comer, Dormir e Trepar, inventou a Trilogia da Necessidade.  
Nossas Longas Pernas de Subir Colinas nos levam por caminhos de Lutas, onde nossa poética em comunhão com companheiros que bradam (em oposição) às formas opressoras estabelecidas por instituições financeiras, que clamam revoluções contra Barões, Primeiras Damas da Barbárie e Canapés servidos nas galerias de artes luz fria.  
Somos uma varanda, vasta, onde debruçam sonhos, inquietações e poesia que transformamos em luta. 
Erika Viana
Dirce Ane
(clique no quadrinho para vê-lo ampliado)

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quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Boletim Dolores - Dezembro de 2014



No imediatismo do dia: comer ou não comer, eis a questão.
No imediatismo do mês: pagar ou não pagar o aluguel.
Eu fico olhando pro céu: meu deus, tudo vai mal!
Mas ao olhar as estrelas, meu imediatismo é sideral.
Naiman

Aiai, no nosso trabalho chamado Casa de Dolores (2003) o personagem Clou - palhaço de teatro\ator de circo - vivia seu drama pessoal sintetizado na canção do querido Naiman, acima exposta. A precariedade da vida daquele trabalhador das artes era facilmente identificada com a vida do público presente. A aparente particularidade da ficção se espelhava numa generalidade de casos reais.

O trabalho cotidiano do Dolores continua assolado pelos imediatismos do dia, do mês... e nosso foco sideral, nossa utopia sangra e ganha sinais de tempo.

Ainda portamos a chama das transformações e o desejo revolucionário assenta-se na calma da luta histórica. Ainda convictos, ainda trabalhadores precarizados, produzindo ainda...

Em meio à avalanche de necessidades conseguimos alinhavar outra grande experiência estética. O "Rolezinho Político-Carnavalesco" - encenação ainda inédita - já engatinhando pelas ruas e espaços parceiros. Tivemos a grata oportunidade de mostrá-lo para militantes-estudantes de 17 países latino-americanos na Escola Nacional Florestan Fernandes do MST, depois a alegria de dialogar com nossos amigos da Brava Companhia e o pessoal do Sacolão e agora, seguimos com nossos parceiros do Movimento de Teatro de Rua (MTR) na mostra Lino Rojas.

Mais de uma década após os dramas de Clou nossas necessidades ainda se condensam em aluguel, comida, trabalho. A temática de nossas produções estéticas ainda circundam estas questões não resolvidas e, como demonstra as relações mercantis e capitalistas, distantes de resolução.

As criações críticas fluem reanimando a luta e a espiral dos movimentos reapresentam temas. Nossa Didi voltou a produzir quadrinhos, e estes marcados pela mesma luta, embora outra, e os mesmos temas, apesar de reproduzidos todos os dias pelas forças que nos governam, oprimem e atravessam.
Luciano Carvalho

Dirce Ane
(clique nos quadrinhos para vê-los ampliados)



O ano de 2014 chega aos seus últimos dias, com suas últimas forças. 
Dia 4 de dezembro, às 18h30, na Praça do Patriarca, fazemos nossa 
última apresentação do "Rolezinho Político-Carnavalesco" 
E pra finalizar, uma leva de mutirões de organização do nosso espaço, 
algumas conversas importantes (15 anos de Dolores já tá na esquina!) 
confraternização e descanso. 
Que 2015 seja um ano de muito trabalho, alegria e luta!!
"Só a luta muda a vida!"

E o Jongo dos Guaianás segue com suas rodas na Comuna Dolores Guaianases. 
Para acompanhar as atividades, siga o perfil do Jongo dxs Guaianás no facebook.

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CDC Vento Leste – Rua Frederico Brotero, 60 – Cidade Patriarca 

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